quarta-feira, abril 09, 2008

Vidas intimidadas, nas terras dos livres*

Robert Fisk (5/4/2008)

Há alguns dias, tive a oportunidade de falar a 600 muçulmanos canadenses, num salão de banquetes em Ottawa. Entre os convidados estavam o imam da mesquita da cidade, o chefe de polícia e vários oficiais uniformizados do exército do Canadá.

O imam sentou-se entre mim e o chefe de polícia, principal autoridade policial da cidade – sujeito genuinamente decente, que gostaria de ser visto como amigo, pelos muçulmanos canadenses –, e chegamos até a rir um pouco dos "controles randômicos", nos aeroportos da América do Norte, pelos quais passam muçulmanos chegados do Oriente Médio e um certo R Fisk. Tudo ia muito bem, até que levantei para falar.

Preveni os presentes, de que talvez não gostassem do que ouviriam de mim. E aconteceu: fui saudado com pesado silêncio, quando disse que todos os ali sentados eram perfeitamente livres para denunciar e condenar Israel e os países da América do Norte – que, na verdade, deviam denunciá-los e condená-los sempre que agredissem os direitos humanos, ocupassem países e matassem civis inocentes –, e que muito me interessaria saber por que só tão raramente eu os ouvira condenar os viciosos Estados policiais do Oriente Médio e de outras áreas do sudeste da Ásia dos quais eles emigraram. Silêncio. Um grupo de diplomatas muçulmanos, sentados como estátuas, identificavam a crueldade de seus respectivos regimes. Aplausos imediatos só vieram quando declarei que o momento certo para a imediata retirada dos soldados foi o primeiro momento em que soldados ocidentais abriram fogo contra muçulmanos em terras muçulmanas.

Dois fenômenos interessantes brotaram desta observação. Primeiro que, quando terminei de falar, fui aplaudido tanto pelo chefe de polícia quanto pelos oficiais do exército canadense. O envolvimento de militares canadenses no Afeganistão, sem solução à vista, tem gerado considerável controvérsia também entre os militares canadenses. Como descobri, os militares sempre falam depois que os políticos calam-se.

Muito mais reveladora, contudo, foi a longa viagem de carro, no dia seguinte, pela tundra gelada do Canadá, durante a qual dois muçulmanos canadenses – sim, sim, eram barbudos – explicaram-me por que a comunidade manteve-se calada apesar das iniqüidades perpetradas pelas ditaduras em suas respectivas pátrias de origem. Eu sugerira que eles apoiariam aqueles regimes – porque precisavam de dinheiro e de suporte político. Eles concordaram. Até certo ponto.

"Mr. Robert, o senhor tem de entender um detalhe", disse o motorista, de repente. "Eles têm agentes mukhabarat aqui no Canadá. Uma briga de família, que seja, pode ser relatada para "lá", se o sujeito estiver zangado, como manifestação contra o regime. E todos temos parentes que ainda vivem "lá". E podem ser presos. Nós também podemos ser presos, quando os visitamos "lá".

Claro. Só um ocidental – que pressupõe automaticamente que quem tenha um passaporte canadense esteja seguro – deixaria de ver a fissura nesta corajosa sociedade multiétnica: não que as vastas comunidades emigradas para o Canadá, de todos os cantos do mundo, não vivam em terras dos livres; é verdade que vivem, sim, em terras dos livres; mas a liberdade aqui é assustadoramente limitada pela brutalidade e pela falta de liberdade nos países de onde saíram.

Assim, comecei a aprender o que é ser um árabe canadense. Basta uma briga de rua, para que um e-mail voe de volta a Trípoli ou ao Cairo ou a Damasco ou para o Golfo, informando aos déspotas de "lá" que um cidadão 'duplo' – Mohamed ou Hassan ou Abdulrahman ou quem for – é subversivo potencial e, ergo, é terrorista. E, tão íntima é a colaboração entre as bem-amadas agências da inteligência ocidental e os torturadores, naquelas ditaduras repulsivas, que a tal "inteligência" é partilhada.

Apenas alguns dias depois de o e-mail ter voado para o mundo árabe, os mukhabarat informam privadamente ao serviço canadense de inteligência – uma instituição realmente muito estranha, chamada Center for Strategic and International Studies (CSIS) – que Mohamed ou Hassan ou Abdulrahman é "terrorista". Então, Mohamed ou Hassan ou Abdulrahman passam a ser observados pelo CSIS como terroristas potencialmente perigosos, residentes no Canadá.

Foi quanto entendi perfeitamente por que minha fala no salão de banquetes em Ottawa foi recebida com aquele silêncio gelado. Não faz muito tempo, por exemplo, Maher Arar, residente no Canadá, foi preso pelos brutamontes do FBI no aeroporto JFK e "redirecionado" para a tortura nos porões de uma prisão na Síria, por cortesia (e informações) do CSIS e da Real Polícia Montada do Canadá.

O governo canadense, depois, indenizou Arar ($10m) pela experiência ultrajante. Mas quem falaria contra o próprio país natal, se sabe que terminará numa cela, com um torturador super-treinado?

Depois de Tariq Ali ter revelado o lado escuro da lenda dos Bhutto, na London Review of Books, ano passado, minha advogada favorita, Gareth Peirce – que ganhou fama em "Em nome do pai"[1] – dirige agora suas baterias contra a versão britânica destes acontecimentos vergonhosos.

Na mesma publicação[2], ela oferece relato detalhado e atualizado das fraudulentas promessas que os britânicos têm feito aos árabes que escolham voltar às respectivas pátrias selvagens – como alternativa à prisão domiciliar no Reino Unido –, de que não serão nem presos nem torturados "lá".

Quando Benaissa Taleb e Rida Dendani foram despachadas de volta à Argélia, por exemplo, um diplomata britânico prometera-lhes que seriam detidas, no máximo, por algumas horas. E foram, ambas, interrogadas e espancadas por 12 dias em Argel, antes de serem condenadas a anos de prisão. Quando, em desespero, Dendani recorreu à Special Immigration Appeals Commission (SIAC) da Inglaterra, eles sequer responderam. E nada os obrigava a responder.

Como Peirce revela, com documentos exibidos nos julgamentos, um memorando privado, que circulou entre o Home Office e Anthony Blair (e como lamento ser obrigado a mencionar o nome deste homem!), alertava os funcionários sobre a possibilidade de os egípcios serem torturados, se fossem deportados para o Cairo, foi recebido por nosso ex-Primeiro Ministro com as palavras: "Mande-os de volta." Sobre o alerta, do Home Office, de que não se podia acreditar nas garantias que os egípcios ofereciam, Blair escreveu: "Isto já está além da conta. Por que precisamos destes memoranda?"

Terei sido o único a reagir com mais do que apenas "não gostar", ao sermão hipócrita, palavroso, daquele ser detestável, na Catedral de Westminster, na 5ª feira? Porque aquela reação imoral àquele caso de deportação – e a resposta similar de incontáveis líderes políticos também detestáveis – contra os muçulmanos que vivem na Europa e na América do Norte é que gera o silêncio gelado, estéril, apavorado e apavorante que ouvi no salão de banquetes em Ottawa. Percebo agora que, sim, se eu estivesse na platéia, também ficaria mudo e imóvel.



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* ROBERT FISK, 5/4/2008. "The fearful lives in a land of the free", The Independent, em http://www.independent.co.uk/news/fisk/robert-fisk-the-fearful-lives-in-a-land-of-the-free-804914.html © The Independent. Tradução para finalidades acadêmicas, sem valor comercial.

[1] In the Name of the Father, filme de 1993. Irlanda/Grã Bretanha/EUA; dir. Jim Sheridan.

[2] GARETH PEIRCE, "Was it like this for the Irish?", London Review of Books, 10/4/2008, na internet em http://www.lrb.co.uk/v30/n07/peir01_.html

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